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PEIXES - ENTENDENDO A CONFUSÃO

Você compra um aquário. Compra as plantas, areia, equipamentos, tudo. Compra os peixes. Muitas vezes compra isso tudo junto! Está armada a bomba-relógio que te vendeu o lojista (despreparado) e ... bum - ela vai estourar, certeza! O estouro sempre fere quem? Os mais inocentes! Se você pensou nos guris da casa, que vão ficar tristes, acertou. Mas, sinceramente, eu quis dizer os peixes: adoecem e, mesmo com o "remédinho" que te vendeu o tal lojista (ai sim já foi em outra vez!), o sucesso não costuma ser dos melhores.


O quê aconteceu? Bom, essa resposta, numa abordagem mais aprofundada, continua sendo assunto da coluna Be-a-Bá do Sérgio Gomes. Mas mesmo quando você faz tudo certinho no começo e segue fazendo dali em diante, ainda assim acontece de algum peixe adoecer - ou porque chegou doente, com algo incubado, ou porque teve uma queda de resistência individual, ou porque algum equipamento pifou, enfim, acontece!

"Cara, aonde esse autor quer chegar?" você deve estar pensando! Veja, quero simplesmente (ou nem tão simplesmente assim) colocar alguns pingos nos "is" para quando (e se) acontecer alguma masela com os seus peixes, ajudar você a entender melhor o que está ocorrendo. Isso que vou falar tem muito lojista que não sabe, então vai ajudar todo mundo. 

Os males que afetam os peixes se confundem um pouco. Muitas vezes os sintomas são parecidos e isso dificulta tudo, do diagnóstico do problema ao seu correto tratamento, além de aumentar a confusão. Os peixes, tanto os de água doce como os de água salgada, podem ser acometidos por um número muito grande de males e, muitas vezes, por mais de um ao mesmo tempo. Classificamos os "bichinhos" que afetam os peixes em quatro grandes grupos: parasitas, bactérias, fungos e vírus. Podem chegar ao seu aquário com um peixe doente que foi comprado (às vezes sem sintomas), com a água do saquinho, com uma redinha suja, com algum alimento vivo e até com novas plantas. Outras vezes estão por perto só esperando aquela "horinha". 

Os parasitas são muito comuns, talvez o grupo que mais frequentemente encontramos por ai. Alguns estão sempre na água, junto com nossos peixinhos, só esperando a tal queda de resistência, a tal horinha para atacarem. Outros precisam "entrar" no aquário em algum momento, vindos de fora, naquelas "caronas' que comentei. Nós os dividimos em ectoparasitas (ou parasitas externos) e endoparasitas (ou parasitas internos). Alguns, tanto no caso dos ecto como no caso dos endoparasitas, podem ser visíveis a olho nú (são chamados macroscópicos) ou não (ditos microscópicos); podem ainda ser compostos por só uma célula (tá vendo, bem que seu professor de biologia disse que um dia ia ser bom você saber!) ou várias células, respectivamente unicelulares e pluricelulares. 

Um representante muito comum dos parasitas é o ictio ou "white spot disease" (doença do ponto branco) - fig.1; outro é o oodinium ou doença do veludo - fig.2. Esses dois são (mas não os únicos) do grande grupo dos parasitas, no caso ectoparasitas. São visíveis a olho nú (por quem conhece o bichinho) e unicelulares. Fixam-se sobre o corpo do peixe, nadadeiras e guelras.

Agora, sabe aquele disco selvagem que você comprou faz um mês e está ficando escuro, respirando mais devagar, sem apetite e emagrecendo? Provavelmente ele está abrigando (abrigando é modo de dizer dos técnicos, viu?) no intestino endoparasitas (aqueles "internos") que podem ser verminhos (visíveis a olho nú, caso o peixe morra e você o necropsie) - fig.3, ou microscópicos, unicelulares, ditos protozoários, primos das amebas que dão dor-de-barriga na gente - fig.4. Aliás, esse também é o nome do ictio e do oodinium ali atrás.

Outro grupo grande e importante daqueles quatro que já falamos é o grupo das bactérias. Elas são organismos mais primitivos, os primeiros animais a habitar nosso planeta e estão em todo o lugar: na sua pele, na água, na boca (sua e do peixe, viu?). São microscópicas (ah, você já sabia!) e algumas são boas e outras más. Estas más é que podem atacar um peixe fraco e depois contaminar os outros. Causam lesões em variados lugares: cauda ("cauda comida"), boca, musculatura, causam feridas (tipo furúnculo, tá?), até mesmo em órgãos internos (é, peixe também tem fígado, coração, rim, etc) - fig.5,6,7,8 e 9.

Nosso próximo grupo é o dos fungos. Sim, são primos do bolor do pão-de-forma e do mofo daquela parede úmida da casa da vovó! De maneira geral, todos os "bichinhos" que estamos vendo são chamados oportunistas, ou seja, ficam aguardando aquela "oportunidade", só que estes, os fungos, são especialistas nisso. Quando ocorre um ferimento no peixe, por exemplo durante o transporte, na captura ou numa briga, eles - os fungos - atacam. Formam bolinhas tipo tufo de algodão branco e ali normalmente há muitos funginhos, pois cada um deles é microscópico individualmente - fig.10. Podem ocorrer também internamente - fig.11.

Como quarto e último grupo temos os vírus - isso mesmo, primos dos da gripe e da AIDS. Microscópicos e muito maléficos. Nos peixes de aquário episódios de viroses podem ser considerados raros - fig.12. Mas ocorrem. Para termos uma idéia da sua seriedade, sabe aquele salmão que você come no restaurante do Shigeo, lá no seu bairro, no Dia dos Namorados (na realidade, das Namoradas)? Pois esse mesmo. Saiba que ele vai ficar mais caro e talvez até saia do cardápio em breve. Sabe por quê? É que o Chile, nosso maior fornecedor de salmão, está enfrentando uma virose nas criações de salmão - a ISA (anemia infecciosa do salmão) - que está dizimando sua produção. A doença não afeta o ser humano mas afeta o salmão (e outros peixes eventualmente) - resultado: menos (bem menos) salmão - fig.13.

Por falar em afetar o ser humano, vai a indicação: sempre, sempre depois de mexer no aquário, lave as mãos (e os braços, né!) com água corrente e sabão. Não fique achando que porque mexeu em água suas mãos estão limpas - afinal, seu aquário está tão limpinho e a água é filtrada; além disso, seus peixes estão bem, certo? Errado; não estão não! Lave-as, sempre. O ideal inclusive é usarmos luvas, de preferência descartáveis.

Agora que fomos "apresentados" aos bichinhos que adoram nossos peixes, fica mais fácil entender e prevenir os problemas no nosso aquário. Prevenir - esse ainda é o melhor remédio! Não compre peixes doentes ou suspeitos. Quarentene todos os novos peixes. Também fica compreensível alguns dos motivos porque os orgãos governamentais se preocupam tanto com a importação e com o comércio de peixes.

Finalizando, só queria dizer que além desses "bichinhos" que você leu, existem ainda algumas outras coisas como qualidade do ambiente, qualidade do alimento, qualidade da água, etc que podem ajudar ou atrapalhar a saúde e o bem estar dos peixes. Mas isso já é assunto para outra vez...

 

ARSÊNIO BAPTISTA
Médico VeterinárioAQUALITY - Assessoria em Ambientes Aquáticos

 

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